Uma lutadora

“A FapUnifesp cria um sistema de estímulo aos docentes. Contribuímos para o desenvolvimento universitário. Somos parte da Universidade e desempenhamos nossas atividades, como Diretores da Fundação, de forma voluntária.”

 

São Paulo, 23 de outubro de 2017 – Maria José da Silva Fernandes fez parte do concurso de 1997, da Universidade Federal de São Paulo. Nesse ano ela ingressou na instituição como docente. Sua história com a Unifesp, porém, começou antes. Mais precisamente em 1988, quando iniciou seu estágio probatório para ingresso na Pós-graduação em Neurologia Experimental, onde realizou seu Mestrado e Doutorado. Naquela época, a Unifesp sequer existia como se compõe atualmente. “Éramos duas escolas de excelência na pesquisa, ensino e extensão das áreas da saúde, a Paulista de Enfermagem e a Paulista de Medicina.”

Nestes 29 anos a história de Zeze, como é conhecida por colegas, alunos, técnicos administrativos, se misturou com a história da Universidade. Sua trajetória profissional é parte da construção da Unifesp. “Como pesquisadora, trabalho para melhorar a vida das pessoas. Até aqui, trilhei o caminho que escolhi e alcancei alguns objetivos. Mas ninguém faz nada só. Principalmente, numa Universidade movida por diferentes cérebros, diferentes áreas do conhecimento que se somam para a construção dessa Instituição.”

Ao ter o conceito do coletivo como pano de fundo de suas ações no trabalho, Zeze pautou suas atividades acadêmicas para além da pesquisa em si. Ela é Professora Associada da atual Disciplina de Neurociência (antiga Neurologia Experimental), do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, tendo sido Chefe da Disciplina em 2012. Em 2005, ingressou para a Diretoria da Associação de Docentes da Unifesp (Adunifesp), e foi sua presidente no biênio 2009-2011.

Entre 2010 e 2012, integrou, como membro eleito, a Congregação da Escola Paulista de Medicina e o Conselho Administrativo da Unifesp. Logo em seguida foi convidada para o cargo de Chefe de Gabinete da Reitoria, na gestão de 2013 a 2017, quando participou, também, da Congregação e do Conselho Curador como membro eleito e do conselho de Planejamento da Universidade.

“Sou uma pessoa de luta. Faço parte de um sistema e tenho de interagir com ele na busca de soluções conjuntas. Nesse processo, cada um pode dar sua contribuição. De alguma forma, tento colaborar com os principais assuntos da Universidade.”

Em 2017, Zeze tornou-se Diretora de Ensino da Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo. “Por minha experiência com a administração pública, fica mais fácil atuar junto à Fundação, que nasceu para apoiar a Universidade e tem cumprido bem o seu papel. Sei das dificuldades, mas também sei ser possível encontrar soluções para os obstáculos.”

 

O que fez a senhora aceitar o cargo da Diretora de Ensino na Fundação?

Meu compromisso com a Universidade Pública. Quando se atinge certa maturidade na atividade profissional acadêmico-científica e administrativa é preciso ter paciência; e é nossa obrigação explicar os caminhos a quem chega. Assim, como dialogar constantemente com os companheiros de jornada educacional sobre nossos princípios, nossa motivação na Universidade Pública. A Fundação é importante espaço nesse processo.

 

Qual a importância da Fundação, como a senhora menciona?

Nossa Fundação foi criada para construir um caminho de favorecimento aos Departamentos pois, num dado momento, eles passaram por grandes dificuldades financeiras para suprir suas necessidades primordiais, buscando nos centros de estudos maneira para manter suas atividades. Essas dificuldades ainda persistem, infelizmente. No entanto, a Fundação nasceu da união desses centros de estudos. Tanto aqui como nas demais instituições de ensino pelo país, as fundações tornaram-se fundamentais à captação de recursos, para viabilizar atividades acadêmicas. Na FapUnifesp, trabalhamos para assegurar esse objetivo.

 

Como o trabalho da FapUnifesp impacta o docente?

Queremos facilitar a vida do docente liberando-o das tarefas burocráticas envolvidas com o gerenciamento dos recursos, para poderem dedicar seu tempo às atividades de ensino, pesquisa e extensão, deixando para a Fundação o desafio de administrar recursos, com base nos preceitos da administração pública.  As Universidades Públicas têm de criar formas para apoiar suas atividades fins e crescer como um todo, evitando diferenças disparatadas entre os Departamentos, com alguns cheios de recursos e outros à míngua. Quando uma fundação de apoio entra em cena, eliminam-se as diferenças. Se quisermos nos tornar uma potência universitária, precisamos impulsionar todas as áreas, de todos os campi.

 

 

Para a senhora, a FapUnifesp é essencialmente gestora de recursos?

Como o próprio nome indica, a fundação é de apoio à Universidade, de estímulo ao tripé ensino, pesquisa e extensão, base da constituição universitária. Nosso objetivo é aprimorar essa atuação junto à Universidade na captação e gerenciamento dos recursos em prol do desenvolvimento de seus projetos, que contribuem para elevar o nome da Instituição em seu melhor, a formação e difusão do conhecimento.

 

Como a senhora pode contribuir para o trabalho da FapUnifesp?

A experiência vivida em cargos de chefia me possibilitou a aproximação com a administração pública e isso, de certa forma, me deu subsídios para entender melhor a relação entre a Fundação e a Universidade. Muitas coisas são engessadas, difíceis de viabilizar, mas nada impossível. É preciso sempre lembrar da importância de se trabalhar com procedimentos autorizados, normatização clara, com acompanhamento jurídico, para conferir segurança à execução de qualquer ato. Nesse sentido, a gestão da FapUnifesp empenha-se exaustivamente para assegurar esses preceitos à nossa Comunidade Acadêmica. Nossa estrutura está posta e buscamos transparência em todos os procedimentos. A transparência, aliás, é marca da nossa Fundação. Trabalhamos para torná-la mais visível.

 

A inserção da FapUnifesp em sua Comunidade Acadêmica pode ser maior?

Somos parte da Universidade, somos docentes. Toda Diretoria exerce suas atividades voluntariamente. Não há remuneração, não se recebe salário ou gratificações pelo desempenho da função como Diretor. Ao integrarmos sua Diretoria, contribuímos à academia. Por isso, precisamos estar mais inseridos. Os pesquisadores podem contar conosco para auxiliá-los na elaboração de seus planos de gerenciamento dos recursos relacionados com seus projetos, esses registrados na Universidade. A Fundação é local para captar recursos, gerenciar recursos existentes e revertê-los à Universidade. Estou Diretora de Ensino e sou docente, portanto, conheço as dificuldades dos docentes quando querem ampliar suas atividades de ensino, ministrando cursos de especialização ou aperfeiçoamento, ou quando precisam organizar eventos para divulgação do conhecimento. Necessitam do apoio institucional e a FapUnifesp trabalha junto à Universidade para facilitar essas atividades.

 

 

Como tornar a FapUnifesp mais próxima dos pesquisadores?

Conversando com a Comunidade Acadêmica. Estamos aqui para ajudar o pesquisador a manter seus projetos e atividades de pesquisa e extensão em funcionamento. Apoiamos os pesquisadores em todas as suas necessidades. No caso específico da Diretoria de Ensino, a qual estou à frente, o relacionamento direto é com a PROEC, local onde as atividades ligadas à Diretoria De Ensino estão cadastradas. Por sua vez, contamos com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura e das demais Pró-Reitorias fins no fortalecimento do relacionamento entre a Fundação e a Universidade. A Fundação viabiliza para a Universidade atividades as quais ela está desautorizada a desempenhar por imposição da administração pública Federal. Portanto, ao invés de se olhar a Fundação como algo distante, difícil, é preciso estabelecer canais de diálogo.

 

A Chefia de Gabinete da Reitoria influenciou sua visão administrativa?

Conhecer de perto o funcionamento de todos os segmentos da Universidade nos diferencia. Nos dá propriedade para desenvolver ações mais eficientes e rápidas, viabilizando possíveis projetos, além de aprimorar nosso julgamento. Meu olhar para a Universidade se aprofundou. Antes, critiquei pessoas pela não viabilização de algum projeto, que julgava importante. Hoje, compreendo, muitos dos entraves colocados iam além das pessoas. Eram inerentes às limitações jurídico-administrativas do serviço público Federal. A Chefia de Gabinete me ajudou a me tornar facilitadora dos processos universitários.

 

A senhora poderia estar aposentada, mas continua na ativa por quê?

Sou uma pessoa de luta, ainda me sinto com muita energia para trabalhar. Faço parte de um sistema e tenho de interagir com ele na busca de soluções conjuntas. Nesse processo, cada um pode dar sua contribuição para o fortalecimento da Instituição. Não consigo ficar alheia às questões institucionais em debate. Como indivíduos, iremos passar, mas a instituição permanecerá a despeito de qualquer crise, de bons ou maus gestores. Cumpro meu papel como servidora pública, sirvo a um coletivo acadêmico. Faço isso quando dou aulas, ao me reunir com meus alunos de pós-graduação, ao desempenhar minhas funções na Fundação. A FapUnifesp é extensão de minha atividade como docente. Ali, trabalho para garantir um sistema de estímulo e esclarecimento aos docentes a fim de ampliar suas atividades de ensino, de extensão, com a divulgação do conhecimento.

 

Como a senhora vê a Universidade Pública atualmente?

A Universidade Pública tem seus pilares e esses estão ameaçados de retrocesso pelo atual governo, mais preocupado em fortalecer os empresários do ensino ao invés de aprimorar a formação do aluno, e as bases educacionais para elevar o país. A atual política educacional assusta por não contemplar a adequada manutenção do ensino público. Ao não incentivar o desenvolvimento da ciência e tecnologia, um país não é autossuficiente. Vai ser sempre quintal do vizinho.