“Ensino público de qualidade é nossa obrigação ética e moral”

Nomeado Diretor de Pesquisa da FapUnifesp, prof. Jair Chagas fala sobre a importância de a Fundação ser vista como aliada estratégica ao crescimento da comunidade acadêmica da Unifesp. Nesse processo, diálogo é fundamental


São Paulo, 15 de agosto de 2017 – O professor Jair Chagas nunca aprendeu a surfar, atividade que acredita ser prazerosa. Apesar de sua incapacidade para subir numa prancha e exibir seu potencial como big rider (como assim são chamados os bons surfistas que gostam das ondas grandes), ele encontrou sua “diversão” em outros mares. “Amo produzir, difundir conhecimento, formar pessoas, discutir com colegas interessados e entender o funcionamento da natureza. Procurar soluções para problemas humanos”. Tudo isso é diversão para ele. “O que a mente humana pode perscrutar não se limita, mas está, potencialmente, presente na vida universitária”. Vida essa que, por mais de quatro décadas, é seu cotidiano.

Formado em Farmácia e Bioquímica pela Universidade de São Paulo, ele é Mestre e Doutor em Biologia Molecular, pela Unifesp; e Pós-Doutorado no Departamento de Enzimologia, da Université François Rabelais, em Tours (França). Por anos, além de professor e pesquisador, esteve envolvido na criação de startups e com atividades do setor privado; além de ter sido dirigente do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT/Unifesp). Agora, tornou-se Diretor de Pesquisa da Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo, FapUnifesp. “A Fundação existe para viabilizar ações da Unifesp, numa relação cooperativa”.

Nesta entrevista, professor Jair comenta a importância de se trabalhar com transparência. “A Fundação realiza um trabalho hercúleo de organização e ajuste contábil”. E destaca a necessidade de se estabelecer ações conjuntas com a comunidade acadêmica. “Queremos criar pontes. A Fundação é instrumento de ampliação das perspectivas de interação com a sociedade.”

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Como a FapUnifesp pode ampliar seu trabalho prestado à Universidade? 

É fundamental haver a consciência recíproca de que a Fundação existe para viabilizar ações da Unifesp, numa relação cooperativa. Uma Fundação deve propor caminhos e interações, que naturalmente devem ser avaliados e aprovados nas instâncias decisórias colegiadas da instituição à qual ela atenda. Essa dinâmica parece óbvia, mas o óbvio é frequentemente esquecido. Parceiros da FapUnifesp, sem exceção, devem vê-la como aliada estratégica. Quando a Fundação cresce, todos ganham. Organizada com um plano estratégico, consonante com as missões da Unifesp, a Fundação é instrumento de ampliação das perspectivas de interação com a sociedade.

Implementar um diálogo direto com os usuários da Fundação foi, até então, um desafio para a Diretoria de Pesquisa. Como aprimorar esse diálogo?

Encontrar os atores e conversar. Conversar, ouvir, agir, mostrar resultados e voltar a conversar. Não esconder dificuldades, pedir ajuda para resolver problemas. Mostrar a existência da Fundação para a comunidade universitária.

O que a comunidade acadêmica pode esperar do senhor como Diretor de Pesquisa da Fundação? 

Transparência é o nome do jogo. Precisamos jogar luz sobre setores de interação da Fundação com a universidade, principalmente naqueles em que a informação não flui com a agilidade exigida. A anterior e a atual administração fazem um trabalho hercúleo de organização e ajuste contábil. Sou testemunha, junto com outros docentes, da minuciosa reconstituição histórica para iluminar qualquer dúvida existente sobre procedimentos.

Como jogar “essa luz” mencionada pelo senhor?

Ao capturar a confiança de nossos pesquisadores e aumentando a interação com setores externos à universidade, além de estabelecer regras claras e procedimentos ágeis junto a administração superior. Queremos aproveitar todas as articulações decorrentes dos congressos acadêmicos da Unifesp, nos colocarmos ao dispor desses grupos de alto nível para criar pontes entre grupos, entre Universidades e com empresas públicas ou privadas. É essencial termos orgulho daquilo que fazemos, e estarmos sempre prontos para corrigir rumos quando necessário. Precisamos dizer ao mundo o que fazemos, avaliar as consequências e realimentar a satisfação de fazer. Todo esse processo deve ser construído, não é um presente do céu.

O que pode ser um diferencial ao aprimoramento da Diretoria de Pesquisa, no perfil profissional do senhor?

Espero que meu profundo apego à ciência e ao conhecimento, sem qualquer discriminação de área ou objeto de estudo; minha crença absoluta no papel da universidade pública, como agente de transformação social positiva; e a experiência de quinze anos no setor privado e criação de startups sejam úteis ao meu novo papel. Mas sem esquecer que a Fundação necessita, visceralmente, do apoio e da confiança da comunidade da Unifesp, sobretudo a científica.

Como a experiência do senhor no Núcleo de Inovação Tecnológica da Unifesp pode influenciar em seu trabalho na Fundação?

Conhecer em detalhes o funcionamento do NIT e suas atribuições, estabelecidas na Lei de Inovação e nos regramentos internos da universidade, aumenta as possiblidades de interações positivas e entrega de resultados de interesse da comunidade universitária. A cooperação entre o NIT e a Fundação deve ser muito estreita, mantida a independência das respectivas administrações.

A Unifesp ainda é uma instituição jovem, como a Diretoria de Pesquisa da Fundação pode auxiliar em seu crescimento?

A administração da FapUnifesp tem uma visão muito clara de quais estratégias utilizar para dar velocidade e visibilidade àquilo produzido na universidade. Temos pesquisa de altíssima qualidade, precisamos contar o que fazemos e, em voz alta, dizer que colaborações são essenciais. É fundamental voltar-se para o exterior, trazer pesquisadores de excelência, estudantes de outras instituições, fazer parte de redes colaborativas internacionais. Colocar a administração a serviço dos pesquisadores é fundamental. Os meios devem ser construídos, discutidos, avaliados e aprovados no PDI. Tirar a burocracia da frente do pesquisador é um grande ideal.

O que o senhor tira de experiência de seus anos de trabalho prestados à Universidade?

Se eu levanto pela manhã para cumprir uma obrigação chamada “trabalho” e não vejo a hora do dia acabar, ou que o final de semana chegue para livrar-me, ainda que temporariamente, dessa obrigação, certamente a satisfação e a alegria não serão facilmente conquistadas. Mas, se sou pago para fazer algo que gosto, amo na verdade, que é produzir e difundir conhecimento, formar pessoas, discutir com colegas interessados e entender o funcionamento da natureza, procurar soluções para problemas humanos, estou me divertindo, não trabalhando. Percalços temos em todas as atividades humanas. Problemas de relações, falta de verba, gente que não quer nada com nada, conflitos de interesse, projetos que naufragam. Nada disso é diferente. Mas o conhecimento é outra coisa, a pesquisa e o desvendar da natureza, a compreensão das inúmeras facetas do humano, a revelação do passado, a compreensão da vida, a admiração que nos causam filósofos, escritores, pensadores em geral, as infinitas formas da criação artística, a reflexão sobre a existência e seu (des)propósito, enfim, tudo o que a mente humana pode perscrutar certamente não se limita, mas está potencialmente presente na vida universitária. Basta ter olhos, ouvidos, voz, coração e mente. É isso que gostaria que nossos estudantes, professores, pesquisadores e técnicos sentissem. Quando essa sensação acontece, a Universidade torna-se grande. Duvido que haja atividade mais prazerosa. Talvez surfar, mas nunca aprendi.

Como o senhor vê o desenvolvimento da pesquisa na educação nacional?

Não concebo qualquer ação da Universidade sem interação entre Ensino, Pesquisa e Extensão. Esses três eixos podem ser sempre encontrados nas atividades universitárias e, se não estão explícitos, devem ser explicitados. Todos estão subjacentes ao conceito de conhecimento. Inquirir é fundamental, inerente, indissociável à mente humana.

Qual o papel da universidade pública no ensino do Brasil?

Temos uma condição desastrosa na educação fundamental e no acesso ao ensino superior. A universidade pública deve se debruçar com afinco sobre essa questão, fundamental à democracia e ao desenvolvimento de uma sociedade mais justa. Ao fazer parte desse contexto, temos obrigação ética e moral de estudar essa questão e propor soluções. Em 8 de julho de 2017, o biólogo e colunista do Jornal o Estado de São Paulo, Fernando Reinach, publicou um artigo intitulado “Cotas na USP: tiro errado no alvo certo”, que aprofunda questões da educação básica. Sugiro a leitura de seu texto para avançarmos na reflexão sobre nosso ensino.